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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Paisagem

...um bom fim de semana para todos!

















Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Fotografia de Nanã Sousa Dias
Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Um corpo encontra a sua profundidade fora dele

um corpo encontra a sua profundidade fora dele
como a palavra isolada ilude a linguagem.

mas é na palavra transitiva que nos amamos
no que passa e contradiz
no lugar onde o erro ainda subverte
a sua prova mais ténue.

respiro as nossas impossibilidades
como se o corpo fosse a libertação
de todas as coisas.


Sylvia Beirute
no blog 
Uma Casa em Beirute

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Falavam-me de amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia